Golpe milionário contra idosos: operação de Capão Bonito prende 14 suspeitos e desmantela organização criminosa que agia na região de Itapeva/SP e em outros estados

Uma organização criminosa investigada por aplicar golpes milionários contra idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade foi alvo de uma grande operação da Polícia Civil, que teve repercussão nacional e resultou em prisões, bloqueio de bens e um forte combate ao crime organizado no interior paulista.
A equipe do Itapeva Alerta esteve na Delegacia de Polícia de Capão Bonito, onde a Polícia Civil detalhou a chamada “Operação Estorno”, deflagrada após uma investigação que durou mais de dois anos e revelou um esquema sofisticado de fraudes praticadas em diversas cidades do interior de São Paulo, além de outros estados.
Segundo as investigações, os criminosos utilizavam falsos clubes de benefícios e descontos para enganar principalmente idosos dentro de supermercados. As vítimas eram convencidas a entregar cartões bancários e senhas aos golpistas, acreditando que estavam realizando apenas um cadastro para obter descontos em farmácias, postos de combustíveis e até nos próprios supermercados.
A operação resultou na prisão de 14 pessoas suspeitas de envolvimento no esquema criminoso. Ao todo, foram cumpridos 34 mandados de busca e apreensão e 22 mandados de prisão preventiva em cidades como Jundiaí, Guarulhos e também na capital paulista.
De acordo com a Polícia Civil, os prejuízos causados às vítimas ultrapassam um milhão de reais. Apenas uma das contas investigadas teria movimentado mais de R$ 1,5 milhão.
As investigações começaram após o proprietário de um supermercado em Capão Bonito procurar a Polícia Civil relatando reclamações de diversos clientes, a maioria idosos, que alegavam terem sido enganados por um grupo instalado dentro do estabelecimento.
O investigador de polícia Paulo Henrique explicou que o comerciante também foi vítima do esquema, já que havia cedido espaço no supermercado acreditando que se tratava de uma empresa legítima oferecendo benefícios aos consumidores.
“Eles ofereciam supostos descontos em farmácias, postos de combustíveis e até no supermercado, sem que o dono do estabelecimento tivesse qualquer conhecimento disso”, relatou o investigador.
Conforme as denúncias aumentavam, vítimas começaram a registrar boletins de ocorrência individualmente. O que chamou a atenção da Polícia Civil foi o perfil das vítimas: em sua maioria idosos e pessoas com pouco conhecimento sobre operações bancárias e cartões de crédito.
A partir disso, os investigadores iniciaram diligências e analisaram imagens de câmeras de monitoramento próximas ao supermercado. Nas gravações, foi possível identificar cerca de cinco a seis indivíduos abordando vítimas, principalmente mulheres idosas.
Segundo a investigação, os criminosos montavam estandes improvisados e abordavam as vítimas oferecendo um suposto clube de vantagens. Mesmo quando os idosos demonstravam desconfiança, os golpistas insistiam até convencê-los a fornecer cartões e senhas.
Muitas vítimas acreditavam que não haveria qualquer cobrança. Porém, no momento em que entregavam os cartões aos criminosos, eram realizadas transações bancárias sem autorização, geralmente parceladas em 10 ou 12 vezes.
O prejuízo médio por vítima gira em torno de R$ 1.200 a R$ 1.300.
Em muitos casos, os idosos só descobriam que haviam caído em um golpe dias depois, ao perceberem a redução do limite do cartão ou ao receberem a fatura com cobranças indevidas.
As investigações revelaram ainda que a quadrilha atuava de forma altamente organizada, com divisão de tarefas, núcleo operacional, administrativo e financeiro, além de uma liderança responsável pelo comando do esquema.
O delegado de polícia doutor Aryclenes Domingos destacou que a estrutura da organização criminosa chamou a atenção dos investigadores.
“Conseguimos demonstrar que existia hierarquia, divisão de funções e um líder comandando toda a organização criminosa. Eles utilizavam fraude, engodo e dissimulação para convencer as vítimas”, afirmou.
Ainda segundo o delegado, embora os criminosos alegassem não possuir treinamento específico, a atuação do grupo mostrava um alto grau de organização e planejamento.
A Polícia Civil identificou que os investigados atuavam de forma itinerante, permanecendo apenas um ou dois dias em cada cidade antes de seguirem para outro município ou até outro estado.
Durante a investigação, os policiais descobriram que a organização criminosa utilizava empresas de fachada para aplicar os golpes. Apenas uma dessas empresas já acumulava mais de 150 boletins de ocorrência no estado de São Paulo, além de registros em Minas Gerais e Espírito Santo.
Posteriormente, os investigadores descobriram que os suspeitos abriram uma segunda empresa de fachada para continuar praticando os crimes. Essa nova empresa também já possui dezenas de denúncias e reclamações.
O investigador Paulo Henrique destacou que um dos maiores desafios da operação foi monitorar simultaneamente cerca de 24 investigados espalhados por diversas regiões.
“As investigações mostraram que eles viajavam constantemente para o interior de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e até Rio de Janeiro. O desafio era acompanhar todos em tempo real para garantir o cumprimento simultâneo dos mandados”, explicou.
Mesmo com as prisões realizadas, a Polícia Civil informou que as investigações continuam. Sete investigados seguem foragidos e novos mandados de prisão e busca podem ser solicitados caso surjam novas provas e novos envolvidos.
Diversos documentos, materiais bancários e dispositivos eletrônicos foram apreendidos e passarão por análise minuciosa.
O delegado Aryclenes Domingos também fez um importante alerta à população, especialmente aos familiares de idosos.
“A principal mensagem é para que as pessoas conversem com os idosos, orientem e alertem sobre ofertas vantajosas demais. Essas organizações criminosas procuram justamente pessoas vulneráveis, oferecendo descontos ligados à saúde, farmácia e necessidades do dia a dia”, destacou.
Ele ainda reforçou a importância do registro de boletins de ocorrência, já que foi justamente o grande número de denúncias que permitiu identificar o padrão criminoso da quadrilha.
“Na dúvida, busque informações, verifique se a empresa existe de fato, consulte o CNPJ e nunca entregue cartões ou senhas para desconhecidos”, concluiu.
A Operação Estorno teve repercussão nacional e reforça o trabalho intenso da Polícia Civil no combate ao crime organizado e aos golpes praticados contra pessoas vulneráveis em todo o interior paulista.
Para a polícia, a orientação e a informação continuam sendo as principais armas para evitar que novos idosos se tornem vítimas desse tipo de crime.
Comentários
Carregando comentários…